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domingo, 24 de outubro de 2010

Sorôco, sua mãe, sua filha

Para um final de domingo com mais poesia, segue um conto de Guimarães Rosa. E que os trens não levem as nossas cantigas desatinadas de cada dia para longe...


Sorôco, sua mãe, sua filha - João Guimarães Rosa*





Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.

As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo – o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.
A hora era de muito sol – o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava. O borco bojudo do telhadilho dele alumiava em preto. Parecia coisa de invento de muita distância, sem piedade nenhuma, e que a gente não pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e não sendo de ninguém. Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.

O Agente da estação apareceu, fardado de amarelo, com o livro de capa preta e as bandeirinhas verde e vermelha debaixo do braço. – "Vai ver se botaram água fresca no carro..." – ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo nas mangueiras de engate. Alguém deu aviso: – "Eles vêm!... " Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer de comitiva.

Aí, paravam. A filha – a moça – tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras – o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papeis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas – virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.

Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles transmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Sorôco – para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: – "Deus vos pague essa despesa... "

O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco agüentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.

De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. – "Ela não faz nada, seo Agente..." – a voz de Sorôco estava muito branda: – "Ela não acode, quando a gente chama..." A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo – um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia. Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.

Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham de dar fim aos aprestes, fazer as duas entrar para o carro de janelas enxequetadas de grades. Assim, num consumiço, sem despedida nenhuma, que elas nem haviam de poder entender. Nessa diligência, os que iam com elas, por bem-fazer, na viagem comprida, eram o Nenêgo, despachado e animoso, e o José Abençoado, pessoa de muita cautela, estes serviam para ter mão nelas, em toda juntura. E subiam também no carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e malas, e as coisas de comer, muitas, que não iam fazer míngua, os embrulhos de pão. Por derradeiro, o Nenêgo ainda se apareceu na plataforma, para os gestos de que tudo ia em ordem. Elas não haviam de dar trabalhos.

Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorcôo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.

domingo, 8 de agosto de 2010

Poesia da semana

Para fechar o domingo e começar bem essa semana de inspirações e quedas, vai uma poesia de Zenildo César (do seu livro Aprendiz de Inspirações e Quedas*):


Fórmula da evolução

Ser realmente o que se é
Agir sem amarras
Desprender-se de todas as garras
Verdadeiramente ter fé

Ser uma criança na guerra
A brincar com os obstáculos
Sem hesitar, ou temer o ato que erra;
Algo além de exatos cálculos

Junte isso à experiência das quedas
Que não virou receio ou medo
Mas a aprendizagem que naturalmente herda
Quem não teme o enigma dos segredos

Acrescente a vontade inabalável de aprender
A resistência que se resume em amor à vida
A sabedoria de saber quando e como ceder
A fortalecer-se com cada lição aprendida

Sem medos misture tudo isso
Una sonhos com metas e forme um elixir
Coloque sempre um toque de sorriso
E tome a fórmula de evoluir.



*Seu livro foi impresso em maio deste ano e posteriormente teremos um post dedicado a isso. Para ver outras criações do poeta, ver a revista do CCHLA, Vivência nº 32 - Subjetividade e práticas institucionais: a reforma psiquiátrica em foco.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

III CERTAMEN POÉTICO INTERNACIONAL ASOCIACIÓN ALONSO QUIJANO

Queridos Companheiros da ABRASME

Envio o poema vencedor do último concurso promovido pela Associação de Usuários Alonso Quijano (D. Quixote).
Que desfrutem!
Abs
Magda


NADIE SE HA ATREVIDO

Jesus Mellado Valle.
(Madrid. España).

Nadie se ha atrevido a llamarme loco
aunque fuera la pista más certera
que podían seguir, han preferido
ponerme en el lugar que a cada cual
le hubiera gustado estar.
Por una obsesión que me impulsa
a cambiarme de acera y cuando
estoy en ella me empuja a ir a la otra,
ellos sólo ven una maniobra de despiste,
una estrategia técnica para dar de lado
a los enemigos que me acechan
como felinos por todas partes.

Ni ven, ni quieren reconocer
mi desequilibrio mental. Mi estado de
ansiedad y mi tic nervioso
son gestos en clave que sólo conocen
los agentes secretos especializados.
Cuando por mi desequilibrio
hablo sólo, piensan que estoy hablando
por teléfono, por un móvil de última
generación, nadie sospecha que voy
de mal en peor. Todos creen ver en mi
lo que ellos no han sido, lo que a ellos
les hubiera gustado ser. En lugar de
tildarme de loco que es lo que soy,
dicen que soy el tipo de hombre
que hace falta a un país.

Una vez por semana entro y salgo
en un elegante portal con fachada
barroca y portero uniformado en la puerta.
Accidental mente me han visto salir
con una mujer joven y atractiva y han pensado
que era mi contacto en la capital,
nadie ha imaginado que era mi psiquiatra.

Por eso han creído ver en ella -ojalá- en su
sonrisa dulce y en su expresión de ternura
un cómplice o un amante. Algunas veces
me alargaba un pequeño paquete y creían
que eran instrucciones secretas para un plan B.
Eran muestras de medicamentos que me
regalaba, antidepresivos y tranquilizantes.
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